← Voltar ao blog
Preparação para Provas 24 de março de 2026 6 min de leitura

Nutrição no Dia da Prova: Quantos Carboidratos Por Hora Você Realmente Precisa?

Você treinou por meses. Seu FTP está afiado. Seu plano de ritmo está sólido. Aí você pifa no km 100 porque comeu dois géis e chamou isso de estratégia nutricional.

Abastecimento é a alavanca de performance mais negligenciada no esporte de endurance amador. A maioria dos ciclistas sabe seu FTP até o watt, mas não faz ideia de quantos gramas de carboidrato precisa por hora.

A ciência é clara. A prática é onde a maioria dos atletas falha.

A conta básica

Durante exercício de endurance acima de intensidade moderada, seu corpo queima uma mistura de gordura e carboidratos. Conforme a intensidade aumenta, a proporção muda para carboidratos. No esforço de limiar, você está queimando quase inteiramente carboidratos.

Seu corpo armazena aproximadamente 400-500g de glicogênio nos músculos e fígado. Em intensidade moderada a alta, você queima 60-90g por hora. Conta simples: sem abastecimento externo, você tem 5-7 horas de combustível moderado e 3-4 horas em intensidade mais alta.

Mas essas reservas não estão totalmente disponíveis. Seu cérebro precisa de glicose. Seus músculos não conseguem drenar o glicogênio até zero e continuar funcionando. Na prática, você começa a sentir os efeitos da depleção bem antes dos estoques esvaziarem.

A solução: repor o máximo que puder, o mais cedo possível.

Recomendações atuais

O consenso da ciência do esporte evoluiu significativamente na última década:

Duração do esforçoCarboidratos por horaO que usar
Menos de 1 horaNada necessárioÁgua
1-2 horas30-60g/horaCarboidrato de fonte única (glicose)
2-3 horas60-80g/horaFonte dupla (glicose + frutose)
3+ horas80-120g/horaFonte dupla, praticado e tolerado

A mudança para 80-120g/hora para eventos longos é relativamente recente. Cinco anos atrás, 60g/hora era considerado o teto. Pesquisas com carboidratos de fonte dupla (proporção 2:1 glicose-frutose) mostraram que o intestino consegue absorver significativamente mais quando usa múltiplas vias de transporte.

Mas aqui vai a ressalva crítica: a tolerância intestinal é treinável. Você não pode pular de 30g/hora para 90g/hora no dia da prova. Seu intestino precisa de semanas de prática para lidar com alta ingestão de carboidratos sob estresse de exercício.

Como calcular seu alvo pessoal

Passo 1: Conheça seu evento

  • Duração: Quantas horas você vai pedalar?
  • Intensidade: Qual porcentagem do FTP você vai manter em média?
  • Condições: Calor aumenta a taxa de queima de carboidratos em 10-20%

Passo 2: Estime a taxa de queima de carboidratos

Em intensidade moderada (60-75% FTP): ~60g/hora queimados Em alta intensidade (75-90% FTP): ~75-90g/hora queimados No limiar (90%+ FTP): ~90-120g/hora queimados

Para um gran fondo típico com média de 70% FTP ao longo de 4-5 horas, você está queimando aproximadamente 65-75g/hora.

Passo 3: Defina seu alvo de ingestão

Tente repor 60-80% do que você queima. Reposição perfeita de 1:1 não é realista durante o exercício — a absorção tem limites.

Para aquele exemplo de gran fondo: 50-60g/hora mínimo, 70-80g/hora ideal.

Passo 4: Planeje suas fontes

  • Géis: Tipicamente 20-25g de carboidratos cada
  • Barras: Tipicamente 30-45g de carboidratos cada
  • Bebida isotônica: Tipicamente 30-60g de carboidratos por garrafa
  • Comida real: Banana ~25g, bolinho de arroz ~30g

Um plano prático de 70g/hora pode ser: 1 gel a cada 25 minutos + 1 garrafa de bebida isotônica por hora.

O cronograma

Abastecimento não é só sobre o total — é sobre o timing.

Antes da largada (2-3 horas antes da prova): Uma refeição rica em carboidratos. 100-150g de carboidratos de fácil digestão. Aveia, torrada, banana, arroz. Nada novo, nada com muita fibra.

Primeiros 30 minutos: Comece a beber sua bebida isotônica. Não coma alimentos sólidos ainda — você não precisa, e seu estômago ainda está se ajustando.

A cada 20-25 minutos depois disso: Tome um gel, uma mordida de barra ou um gole de bebida concentrada. Coloque um timer no relógio. Não espere até sentir fome — quando sentir, já está atrasado.

Últimos 30km de um evento longo: Aumente para sua taxa máxima tolerável. Gel de cafeína aqui, se você usa cafeína. É onde provas são ganhas ou perdidas nutricionalmente.

Os erros que arruínam provas

Começar tarde demais

“Vou comer quando sentir fome.” Quando você sente fome durante o exercício, a depleção de glicogênio já está avançada. Comece a abastecer cedo, coma pelo relógio, não pela sensação.

Muita comida sólida no início

Seu intestino desvia sangue para digestão, mas durante exercício intenso, o sangue é necessário nos músculos. Calorias líquidas e em gel são absorvidas mais rápido e causam menos problemas gastrointestinais. Guarde comida sólida para eventos muito longos (5+ horas) e trechos de menor intensidade.

Não praticar nos treinos

O dia da prova não é hora de descobrir que géis da marca X te dão náusea a 200W. Pratique seu plano exato de abastecimento nos pedais de treino. Cada marca de gel, cada bebida isotônica, cada intervalo de timing.

Sub-hidratar

A desidratação prejudica a absorção intestinal. Se você não está bebendo água suficiente junto com seus carboidratos, os carboidratos ficam no estômago. Mire 500-750ml/hora dependendo da temperatura e taxa de suor.

Tudo ou nada

Alguns atletas não comem nada por 2 horas e depois tomam 3 géis de uma vez. Isso causa desconforto gastrointestinal. Doses pequenas e frequentes são sempre melhores que grandes e espaçadas.

Seu perfil metabólico muda a conta

Aqui fica interessante: seu VLaMax afeta quantos carboidratos você queima.

Atletas com VLaMax alto queimam carboidratos mais rápido em qualquer intensidade dada. Depletam glicogênio mais cedo e precisam de mais abastecimento externo. A “Zone 2” deles é mais glicoliticamente demandante que a de alguém com VLaMax baixo na mesma intensidade relativa.

Atletas com VLaMax baixo são mais adaptados à gordura. Queimam mais gordura e menos glicogênio em intensidades moderadas, o que significa que suas necessidades de carboidratos são menores — e seus estoques de glicogênio duram mais.

É por isso que um plano de abastecimento personalizado baseado no seu perfil metabólico real é mais preciso que recomendações genéricas. A diferença entre 60g/hora e 85g/hora ao longo de uma prova de 5 horas é enorme — tanto em performance quanto em conforto intestinal.

Um plano prático de abastecimento para o dia da prova

Evento: Gran Fondo, 140km, 4,5 horas estimadas, média de 68% FTP

Meta: 65g carboidratos/hora = ~290g total

Execução:

  • Café da manhã pré-prova: 120g carboidratos (aveia + banana + torrada), 3 horas antes
  • Largada até km 30: Água + 1 garrafa de bebida isotônica (40g)
  • Km 30-100: 1 gel a cada 25 min + bebida isotônica por hora = ~70g/hora
  • Km 100-130: Aumentar para 1 gel a cada 20 min + bebida = ~80g/hora
  • Km 130+: Gel de cafeína, arrancada final

Inventário: 8-10 géis, 3 garrafas de bebida isotônica, 2 garrafas de água pura

Pratique esse plano exato num pedal de treino de 3-4 horas pelo menos duas vezes antes do dia da prova.

Conclusão

Abastecimento não é um luxo. Para qualquer evento acima de 2 horas, é tão importante quanto seu treinamento. Subabastecer em apenas 20g/hora se acumula ao longo do tempo — na hora 3, você está 60g atrás, e seu corpo sabe disso.

Calcule seu alvo. Pratique no treino. Execute pelo relógio no dia da prova. Os atletas que pifam são quase sempre os que não tinham um plano.


Watts gera um plano de abastecimento personalizado baseado no seu perfil metabólico, duração do evento e alvos de intensidade. Carboidratos por hora, timing de gel, hidratação — tudo derivado do seu VO2max e VLaMax reais, não de tabelas genéricas.